domingo, 11 de março de 2007

| dança | "Nó", de Deborah Colker


Não sou conhecedor ou estudioso de arte e, por conta disso, provavelmente não seja o melhor crítico, ou minhas opiniões normalmente não tenham embasamentos teóricos. Mesmo nos casos de arquitetura, cinema, fotografia, música, quadrinhos, literatura, teatro ou artes plásticas, às quais dedico um bom tempo e grande parte de minha massa encefálica, não sou um teórico, normalmente não reconheço estilos, e na grande maioria das vezes minha opinião é guiada por alguma emoção qualquer que tive ao ter contato com a obra. Também muito por conta disso, procuro ir a todo lugar que possa despertar esse sentimento, e cada vez que estou experimentando uma peça artística, procuro entendê-la, naquele momento, com todos os sentidos. É essa experiência sensorial que vai ordenar meu pensamento, e muitas vezes talvez não passe do "gostei" ou "não gostei", e os motivos eu só vou conseguindo verbalizar com o tempo.

Ontem experimentei Deborah Colker.

E gostei, mas gostei muito! Hoje, depois de digerido um pouco as sensações que tive no teatro, ainda não sei completamente porquê. Apenas gostei. Mas eu consigo perceber uma grande diferença que aconteceu nesse espetáculo e que é novidade para mim: eu identifiquei a mensagem que a coreografia passava.

Explico: dança é uma forma de arte que, até ontem, não conseguia despertar em mim muita coisa além do interesse visual, de olhar o conjunto inteiro dançando, de analisar se os dançarinos estavam bem coreografados, afinados, sem erros. Mesmo com a ajuda da música, nunca enxerguei além dos passos, e a coreografia pouco me dizia, o figurino pouco importava. Não sou um leitor corporal dos mais eficientes, o que não ajuda muito.

1° ato - "Cordas"
fotos: divulgação

Ontem, como eu disse, foi diferente. Eu senti a interpretação dos dançarinos, eu identifiquei personagens. Durante a dança eu pude ler a história, de como eles se relacionavam, de como um interferia na vida do outro. Sem dizer uma palavra, somente com o corpo, me falaram de amor, amizade, traição, dor, raiva, felicidade, união, melancolia, prazer...

2° ato - "Vitrines"
fotos: divulgação


Os cenários nos dois atos, de uma simplicidade e inteligência incríveis, faziam parte da coreografia de uma forma intensa, reforçando a teatralidade. As cordas do primeiro ato eram, literalmente, o que unia os dançarinos, e a forma como eles usavam essas cordas ajudavam a entender como era a relação entre os personagens. No ato 2, "Vitrines", eles reduziram o campo de atuação dos dançarinos pra dentro do cubo de vidro, e aumentaram consideravelmente a complexidade da coreografia. Mais uma vez o cenário era um meio metafórico, que unia visualmente mas separava fisicamente as personagens.

As músicas, que identifiquei em parte, são fundo e personagem. Ela estava lá, pontuando as relações dos dançarinos que, de vez em quando, numa pausa ou num acorde de mudança, marcavam a presença da melodia na atuação deles. As músicas, que eram um pouco hipnotizantes, tinham um quê de mantra, de repetição, mas que mudavam de curso e ritmo à medida que cada pedaço da história era contada. Vale a pena ouvir novamente, vou procurar por aí a trilha. A setlist ( que vi no site deles ) foi essa:


1° ATO - Cordas

1. Bondage : Monoaural
2. Vocais : Monoaural
3. Wisdom Eye : Alice Coltrane
4. Elásticos : Monoaural
Teclado - Hiromi (músico convidado)
com sample de "They Trew" (Liars)
5. Novi Singers Remix : Novi Singers / Monoaural com samples de "Five, Four, Three" e "Next
Please" (Novi Singers)
6. Trace : Harmonia 76
7. ?ter : Monoaural Vibrafone - Guga Stroeter (músico convidado)
8. Concerto para Piano & Orchestra em G Maior 2, Adagio (Ravel) : Argerich / Abbado - London Symphony


2° ATO - Vitrines

9. My One and Only Love : Chet Baker
10. Pad : Bobby Summers
11. Coisa N°1 : Moacir Santos
12. Coisa N°4 (Remix) : Moacir Santos / Monoaural
13. Love Theme from Spartacus : Garbo Szabor
14. Amorfo Remix : Monoaural com samples de "Sadness" (Ornette Coleman Trio), "Yucatan"? (Sun Ra), "Los Caballos" (Alice Coltrane) e "Black Is The Colour Of My True Love's Hair" (Patty Waters)
15. Elegant : Henry Mancini And His Orchestra
16. Preciso Aprender A Ser Só (Remix) : Elizeth Cardoso / Monoaural


O TCA estava lotado, não me lembro de ter visto isso antes. Lotado, mesmo, a sala principal com raríssimas poltronas vazias. E esse povo todo, no fim da apresentação, ficou bem uns três minutos batendo palmas de pé. E foi muito merecido. Essa experiência foi fantástica e, na saída do teatro, quando encontramos alguns dos dançarinos, não consegui dizer muita coisa além de "fabuloso", "parabéns", e "obrigado". Espero assistir a outros espetáculos desse nível, espero que venham aqui novamente.
Eu vou fazer de tudo pra estar lá.


Clique aqui para o site deles.

Um comentário:

Alice disse...

É, eu confesso que ainda não consigo comentar sobre o espetáculo, que realmente foi um ESPETÁCULO.
Fiquei maravilhada.
Nos encontraremos nos próximos!